Por um retorno sem nostalgia

 

Era num desses incomparáveis momentos do crepúsculo sertanejo, quando comecei a ler nº 02 do jornal O Caboclo que mãos amigas (com certeza cósmecas) enfiaram por debaixo da porta, em casa, de repente, sem Ter visto o nome do articulista, surpreendo-me com adorável redação de texto evocativo, repleto, todo ele, do que se pode chamar, em nossos dias, de coisa rara: estilo escorreito, pontuação corretíssima, fartura de beleza literária. Era o Nostálgico Retorno de José Theodomiro de Araújo. Crepúsculo instante, o que vivi, então. Foi difícil, ali, identificar José Theodomiro de Araújo. Não o Dr. José Theodomiro, mas Zé Theodomiro ou Zé somente (sobretudo) estava naquela epopéia da infância que se vestiu de beleza vernácula e expressou sua linguagem para os leitores de O Caboclo. “Que uma chuva calma chegue à noite tamborilando no telhado como canção de ninar”- foi tudo que almejei, repetindo Zé, para tornar completo o dia 27 de fevereiro.

Passadas algumas horas, começo a pensar (e escrever): na menor das hipóteses, a idéia da Comissão de Revitalização já atingiu altos objetivos: Caboclo está comentado, falado. É tem a motivação de bate-papos mesmo entre pessoas que não o conhecem ou conheciam e, até, assunto polêmico de reflexões e  escritos.

Somente em 1995 conheci Caboclo, num dia bonito de aniversário do tamarindeiro (que coisa especialmente linda e ecológica: um povo comemorar o aniversário de um pé de tamarindo, as plantas também têm alma!!! as crianças abraçá-lo, em roda, cantando “parabéns pra você”). No entanto, passei a infância e adolescência ouvindo falar nesse povoado. Meu pai e meu tio (Cícero e Pacífico da Luz) recomendavam aos clientes uma temporada de 20 dias, 1 mês ou 2, “naquele abençoado lugarejo de clima ameno e águas medicinais”, para a cura de suas enfermidades. “É o único lugar, nesta região, adequado à saúde e com capacidade de curar doenças”,  dizia constantemente meu pai, ratificado sempre por Monsenhor Ângelo Sampaio, quando acontecia de este estar presente. Ouvi, também reiteradas vezes, Dona Chiquinha de Seo Theodomiro e filhos bendizerem aquele pequenino lugar chamado Caboclo.

Não, Zé, “Caboclo não é, hoje, somente saudade”. “O passado é só o que não passa”,  diz um grande poeta baiano. Se você lembra, se você evoca, é porque não passou... Os tamarindeiros seculares estão lá; os galos cantam na madrugada; os pintassilgos ainda esvoaçam (claro, os “infames europeus urbanos”, os pardais, chegaram:  novidade dos tempos, culpa dos homens!); a chuva tamborila no telhado, vez em quando; as andorinhas, o cheiro de terra molhada, as borboletas, aparecem; outras mestras fazem peta, doce de leite, doce de umbu (que gostosura!!!)... A maior prova de que Caboclo não é somente saudade é que, não obstante os cabelos brancos embelezando seu rosto agora, o menino Zé existe guardado, e guardando todas aquelas coisas... Como é só saudade, Caboclo, se você voltou??? Se tantos voltaram??? A verdade aparentemente dolorosa, no entanto essencialmente grandiosa e bela, é esta: Zé é que é somente saudade. Nós é que somos somente saudade, Zé, porque envelhecemos. Dr. José Theodormiro não sabe mais caminhar “carregando”os muros das casas com o dedo polegar, mas o menino Zé sabe, dentro de Dr. José...

Por isso, amigo, é bom que se juntem todos os doutores e não doutores aos meninos dentro deles, para renovarem, como vocês já começaram a fazer, o lugarejo lindo de vocês (Deus do céu, como é bonito Caboclo!), esse Caboclo que vocês amam...

Daqui a algum tempo, quem sabe, haverá ali estações salvíficas para tratamento de doença horrorosa como câncer, aids, etc, etc (acredito piamente nas palavras de meu sábio pai, seu amigo, quando falava de Caboclo), e, aí, a Comissão de Revitalização de agora, os Cavalcanti, Durando, Amorim, Theodomiro, Ramos, Albuquerque e outros e outros ramos da grande família caboclense de agora, vão envelhecer em estado de graça porque,  ressuscitando o menino dentro deles, ressuscitando Caboclo, tornaram-se co-criadores e sobremaneira co-redentores, salvando andorinhas, pintassilgos e, principalmente homens.

Marta Luz

Escritora