Fragmentos

 

 Observando o casarão atentamente,

Vi ali à minha frente

Não somente a vivenda

Mas beneméritos e divina aprovação;

O livro da construção da geração,

Um relicário de consagração,

A colméia dos filhos, a instalação

De netos e bisnetos, o favo de mel,

A história escrita sem papel,

Além dos brinquedos invisíveis,

E os devaneios indizíveis,

A sombra desenhava um par

Um par perfeito, vultos sem danos

Com certeza, ali estavam incontestes,

À porta sentados, os memoráveis donos!

 

Tamarineiro primevo,

Sombreiro tamarineiro...

Eminente árvore secular

Insígnia do Caboclo;

Que tens em comum

Com o seu povo inteiro?

Ora, a tua raiz profunda

Como a dos sentimentos

Que a todos inunda...

Em cada vida, os vasos e seivas

Circula o oxigênio do mesmo ar

E o hidrogênio da mesma água!

Vens da sementeira dos primórdios,

De Caboclo, a raiz da árvore familial...

Provenientes tu e todos os demais

Da flor da Vila-flor

Brotos da terra fecunda

Nós e tu tamarineiro,

Somos o fruto do amor!

 

Meu nascer, de ti não oriundo,

Se em outras plagas vim ao mundo,

Todavia nascer é ter origem,

E te digo com sinceridade,

Não se oculta ao conhecimento,

Mas pode cair no esquecimento,

Não é nenhum segredinho,

Sou filha de D. Sinhá,

E neta de Seu Luizinho!

Dessa figura estimada,

Querida, popular, Pai-dindinho,

Lembrarei mais um pouquinho,

Razão maior de poesia melhor,

Desde minha infância latente

Mesmo sem expressão aparente,

Ele é dos símbolos existentes,

Mais antigo antecedente,

Nesse recanto sobrevivente

Aí, até sua morte, residente!

  

Foi em setenta e três

Numa carta outra vez

Que contei a Pai-dindinho

E lhe dei o recadinho

Fazendo a declaração

De toda a recordação

Na alma e no coração

De sua pequenina atraente

Seu lugarzinho residente!

 

 Sem ninguém imaginar,

Como gostava de observar,

Na casa de mãe-dindinha,

Lembranças são fontes a jorrar

Muitas vezes fico a recordar

Sentada me vejo na janelinha

Então garota, na sua cozinha,

Que frito gostoso na tigelinha,

De esmalte azul, pra todos continha

Os ovos caipiras, do cultivo de mãe-dindinha!

 

 

Emília Cristina Cavalcanti Ramos

Psicóloga