O Flamboyant e Caboclo

 

Entretido com os trabalhos da pedreira, eu quase não via o tempo passar.  Entretanto, quando os flamboyants da praça N. Sª Auxiliadora começavam a florir, traziam-me a mensagem da chegada das férias do fim do ano.  Que bom!  Minha esposa vai ficar de férias, as crianças também e aí vamos nos divertir juntos.  Todo fim de semana, fazíamos um passeio diferente pelas redondezas da cidade e até mesmo por cidades circunvizinhas.

Caboclo era nosso passeio preferido.  Lugar cuja tranqüilidade impregnava-nos de paz e alegria, como ainda hoje sói acontecer.  Caboclo é um lugar onde o bar funciona num alpendre e as pessoas vêm, a qualquer hora do dia ou da noite, pegam o que lhes interessa e oportunamente vêm efetuar o devido pagamento.

- "Olhe aí, Seu fulano, eu ontem, ou anteontem, peguei tantas coca-colas ou tantas cervejas e venho pagá-las ".

Em Caboclo, ainda é assim.  Caboclo é mesmo "sui generis".  Certamente, não há outro lugarejo igual em todo o mundo.  Acredito que os espíritos de Seu Luizinho, Seu Zezé, do Major Agostinho e de outros estejam por ali dando proteção àquele paraíso aqui da terra, onde o velho tamarindeiro da frente da casa de Seu Luizinho, garbosamente, ostenta seus mais de 150 anos de existência.

Estive em Caboclo pela primeira vez em 1945, quando houve a primeira eleição depois da ditadura de Getúlio Vargas; eu era então primeiro suplente de Juiz de Direito e, por força da lei, seria o presidente da Junta Apuradora de Votos.  Procurando desempenhar o meu papel, comecei a me sentir mal e Dr. Nestor Cavalcante, um dos candidatos a deputado estadual, olhando para mim, que estava verde como um pé de alface, disse-me:

- "Rapaz, você está com uma bruta icterícia".

Comuniquei o fato ao Dr. Juiz de Direito, Dr. Pedro Lins, solicitando que arranjasse um substituto, pois teria que me afastar em razão do meu estado de saúde.  Em seguida, procurei o Dr. Pacífico e ele me aconselhou ir para Caboclo dizendo que lá, além de ter um clima muito bom, tinha a água da cacimba de Seu Zezé, que parecia ter magnésio e poderia me fazer bem.  Meu estado era precaríssimo: febre, desânimo e o pior, uma falta de apetite que até água de coco eu a tomava apulso.

Aceitamos o conselho de Dr. Pacífico e numa quarta-feira pegamos, minha mãe e eu, o trem da E.F.P.T.( Estrada de Ferro Petrolina - Terezina) que, por sinal, ia somente até Paulistana, no Piauí.  Antes, conseguimos a chave da casa paroquial onde nos hospedaríamos.  Dr. Pacífico, então Prefeito de Petrolina, deu-me uma carta que deveria ser entregue em Afrânio ao senhor Raimundo Fernandes, hoje meu amigo, pedindo-lhe que providenciasse transporte, isto é, animais de sela e de carga, para nos levar até Caboclo, que fica a uns 10 quilômetros de Afrânio.  Tomamos a pensão de Meu Nego, enquanto o destinatário da carta providenciava as alimárias para nossa viagem.

Fomos a Caboclo e, em lá chegando, dirigimo-nos à Casa Paroquial que encontramos limpinha e pronta para ser habitada.  O Vigário, cuja desobriga atingia Caboclo, era o Pe.  Américo Soares, ordenado aqui em Petrolina, por D. Idílio José Soares.

Chegamos lá numa quarta-feira e na quinta eu já estava sentado à sombra do velho tamarindeiro conversando com Seu Luizinho, para quem eu também levava uma carta de recomendação de Dr. Pacífico.  Seu Luizinho era Agente Arrecadador da Prefeitura de Petrolina, a cujo Município, Afrânio e Caboclo pertenciam.  Tinha muitos filhos com os quais logo me identifiquei.  Fiz amizade com João que, se não me engano, era o mais velho, por sinal, a cópia fiel de Seu Luizinho.  Além de João, havia, Jesus, Paixão, Raminho, Lulu, Bitonho, Afonso, Moisés, Sinharinha, Noemisia, Josefa, Litinha e Durvalina.  Gente próspera.  Todos estão bem na vida e são meus amigos.  Peço, entretanto, licença aos demais para prestar uma homenagem ao casal Antônio Filho e Zefa por terem gerado filhos maravilhosos, especialmente o Dr. George, médico do mais alto conceito, não só como profissional, mas, sobretudo como pessoa humana cheia de virtudes.

Posteriormente, cheguei à conclusão de que aquela cura, quase milagrosa, não teve nada a ver com a água do barreiro de Seu Zezé.  A cura adveio do meu estado de espírito convivendo com aquela gente maravilhosa naquele lugar cheio de paz e tranqüilidade.

Começara a trabalhar em 1937 e estávamos em 1945 e jamais tinha tido umas férias.  Naquele tempo, aqui em nossa região, não só inexistia vínculo empregatício oficial corno também férias.  Jamais tinha parado um momento na vida pra me situar, para saber quem realmente eu era.  Aquela pausa forçada serviu para que pudesse refletir, analisar e compreender quem realmente era eu.  O bucolismo e a tranqüilidade daquele lugar paradisíaco, a presença da minha santa mãezinha, aos cuidados de quem eu estava entregue, fez-me ver a vida por outro prisma.  Senti realmente o prazer de viver e o organismo, como num passe de mágica, se refez.

Para encurtar a conversa, passei apenas 12 dias em Caboclo e nunca mais tive nada no fígado, não obstante as extravagâncias que faço.

Depois que me casei, minha esposa aprendeu também a gostar de Caboclo e, de vez em quando, vamos até lá onde passamos vários dias com toda a família.  Por deferência do meu amigo Zelício, sempre consigo o velho casarão do seu avô, Seu Zezé, e lá ficamos desfrutando da serenidade que o lugar oferece.  Meus filhos também adoram ir a Caboclo.

Finalmente, concluo que minha cura ocorrida dentro de um prazo muito curto e sem ajuda de remédios alopáticos, deu-se em virtude do ambiente saudável que inspira aquele lugar, muito especialmente naquela época em que se podia contar com a presença salutar e aconchegante daquela gente que morava lá.  Quando isso se deu, eu tinha 24 anos e, como disse, nunca havia tirado férias.  Aqueles dias, naquele lugarejo tranqüilo e impregnado de história, fez-me parar um pouco para refletir e voltar no tempo, buscando contato com meus ancestrais.  Foi lá que, pela primeira vez, lembrei-me de perguntar a minha mãe o nome dos seus pais, portanto, meus avós.  Lembro-me de que ela ao informar-me seus nomes o fez tomada por forte emoção.  Parece-me que, naquele momento, mamãe sentiu uma grande saudade de seus pais.

Agora mesmo, não fosse a doença de minha esposa, iria passar uns dias em Caboclo, a fim de buscar um pouco de paz para meu espírito e saúde para o corpo.  Sei que não sou indispensável, mas, não obstante a presença de outros familiares, inclusive filhos, perdoem a imodéstia, minha presença é a mais salutar.  Sinto que minha presença a faz feliz e confiante.  Também, entre namoro, noivado e casamento já se vão cerca de cinqüenta e cinco anos de convivência enfrentando juntos os altos e baixos da vida.  Agora, mais do que nunca, necessitamos um do outro.  E seja feita a vontade de Deus.

 

Aparício Lima (in memorian)

Escritor