Caboclo.  Só uma saudade

 

A chuva acordou-me surrando o meu telhado. Privilégio meu.

Morando no alto sertão e habitar um teto forrado, não combina com a minha formação matuta. Quero mesmo, desde cedo, o sol testemunhando a minha vida. Ultrapassei a necessidade de sombras.

Se as chuvas não fugidas, quando vêm, as madrugadas, então, compensam-se por todas as suas andanças. Pretender ser despertado, todas as manhãs por sua cantoria. É querer o inatingível, o céu, sabendo-se, antecipadamente, a alma cheia de culpas.

Mas ser sertanejo, é ter o sol à sua disposição. Com ele, vingo-me das chuvas podendo ter um amanhecer banhado de cores. Olhando o telhado brilhante, antevejo, lá fora, um dia saudável, convite à vida. De um salto, estou na rua. Estou no mundo.

A chuva me traz saudades antigas, de coisas julgadas mortas. Saudades como as desta manhã onde lembranças fazem-me na minha meninicie, de outros dezembros da “Festa do Senhor do Bonfim”.

Cumprindo o ritual, todos nós, originários do CABOCLO, para lá nos deslocávamos e celebrávamos o novenário do Padroeiro, herança melhor dos nossos antepassados.

CABOCLO, com jeito pré-histórico, ainda está por ser contado. Com a chegada da estrada-de-ferro, dizem Ter havido uma reação para que este progresso não passasse pelo lugarejo, dando, assim, oportunidade à formação de um novo núcleo populacional na então “Fazenda Inveja”, hoje a cidade de AFRÂNIO. Em consequência, posteriormente, todos moradores de CABOCLO, atraídos pela efervecenciada nova povoação, nesta viriam fixar residência.

CABOCLO tornara-se uma espécie de relicário e, o seu novenário, de 23 de dezembro a 1º de janeiro, o grande dia, uma tradição a ser preservada santa e fervorosamente. O casario fechado, marcado com a cor do tempo, um cinza escuro, empresta-lhe aspecto de eternidade, um monumento ao tempo, místico; despertava, em nós, na alvura da sua igrejinha romântica onde quase sempre nos casávamos, o de seja da oração, da contemplação. O seu patamar, uma espécie de passeio para os enamorados. À frente, no melhor estilo da época, o cruzeiro e, bem no alto deste, o “galo que a minha criancice sem o engodo de “Papai Noel”, ouvira cantar tantas vezes um canto como se interpretado por um coral emissor de cores e sons; sons formados por chilrar de pássaros conhecidos e desconhecidos. Uma coisa fantástica somente audível por oiças de crianças sem vez ao mundo adulto.

A lapinha do CABOCLO!, jamais vi outra igual em beleza e realidade. Tínhamos tudo como real e críamos, acima de tudo, nela ter nascido o Menino Jesus; melhor, “Menino Deus”, cercado de muitos animais e em cenário de lago onde deslizava, macio um cisne majestoso que me fascinava. À meia noite, após o “terço”, o sino começava a repicar e todos, envolvidos num clima sacro festivo, contávamos, saudando, verdadeiramente, o “Menino” recém nascido:

            “Senhora Santana

            Vamos a Belém

            Visitar a Jesus

            Para o nosso bem...”

Depois, naquelas casas antigas, cercadas de mistério, café e bolos com cheiro e gosto de mala de couro.

Os lajedos, os banhos dos “caldeirões”, a água do “Bom Princípio”, ir ver o paredão de pedras “construído pelos índios”, a areia alva e fina onde rolávamos sem compromisso com o tempo, com ordens paternas, com nada. Ali gozávamos a plenitude de liberdade. As idas à serra do Cruzeiro, tirar licuri ou ficarmos nos embalando nos imensos galhos da centenária tamarindeira da casa de: seu Jacó”, e ainda existente.

Ajudado pelo clima frio, D. Malan pretendeu construir lá uma casa de veraneio, a neblina brincava conosco no meio da rua ou nos espiando de cima dos telhados cobertos de limo, a comida tinha um sabor distinto. Queríamos comer o dia todo. Estávamos sempre com fome.

As dormidas improvisadas, tudo era improvisado para dez dias, o medo gostoso  sim, era um medo que tínhamos vontade de ter, dos fantasmas que se comentava; vivem perambulando por ali. Havia uma casa, não digo qual a que chamávamos “o foco das almas”. O sino tocando sozinho e fora de hora, até hoje se comenta; o cemitério velho cuja data de construção perdeu-se no tempo, cheio de flores apesar de “desativado”; minha Vó CAVINA  JOAQUINA ETELVINA DE LIMA VERDE!, como ela falava de “boca cheia” deste nome! (lástima, nem me deixaram o Lima, do Jaicós, Piauí, no nome), dizendo:

Não brinquem debaixo da casa velha da feira! (Por que seria proibido, ela só reclamava sem maiores explicações da advertência?); a Casa de N. Sª. dos Remédios de minhas tias MAROCAS e STEFÂNIA com suas falas “emboladas”, “diferentes” (de onde viria aquele sotaque?); tudo, tudo, os parentes, os amigos chegando de todas as partes; vez por outra a eclosão de uma birra antiga, mas só nossa, “não era da conta de ninguém”. Tudo isso, enfim, envolvia-nos num mundo fora deste mundo.

Fui lá. Que é de festa, amigos? Que é de CABOCLO? E o “galo” do cruzeiro? Para onde levaram a areia alva e fina? E a casa de N. Sª. dos Remédios? E o sentimento de religiosidade? Por que trocaram tudo aquilo por uma desenfreada festa pagã?

Doeu. Doeu muito. Posso falar, não posso?, claro que posso. Com todos, tenho plena liberdade para tanto.

- Vocês não acham ser aquele pedaço de chão diferente, até nas suas características geográficas das do massapê de AFRÂNIO, um relicário, um lugar escolhido por Deus, refúgio das nossas preces, encontro das nossas amizades?

- Por que não se transformar CABOCLO, na sua festa, num lugar onde se possa soltar, sem aquela poluição sonora, a comercialização de tudo invadindo a Igreja, o refúgio do nosso espírito de contemplação?

  “Amado, Jesus,

  Senhor do Bonfim,

  Fazei que vos ame na glória sem fim!”

A garganta apertou mas não deu para segurar a lágrima grossa que correu no rosto marcado pelo tempo.

 

Simão Durando (in memoriam)

Ex-Prefeito de Petrolina-PE